“Na barriga da minha mãe já guardava gado”, garante António Lopes. Tem 80 anos de pastor e deu continuidade a uma árvore genealógica que ganhou raízes na Serra da Gardunha, bem nas fraldas da Estrela. Conta que foi alimentado “nas tetas de uma cabra”. Para ganhar uns dinheiros, a mãe poupava o leite para poder dar o peito ao filho de uma senhora de Alpedrinha; “Quando chorava, a cabra vinha a correr para o berço e tinham de a afastar”. Tem uma relação próxima com os animais que sempre o acompanharam vida fora, como uma segunda família. Na serra, conhecia as ovelhas pelos nomes: a “rola”, a “Andorinha”, a “Carriça”, a “filha da Carriça”...
Agora já não sobe à Gardunha, mas passou por lá muitos anos à procura de “alimento para o vivo”, de sombras no Verão e de abrigos no Inverno.
Sabia que era hora de almoço quando a estômago dava horas e o sol chegava mais alto. Então “ordenhava leite sobre o pão duro, para o poder comer, e juntava-lhe um pouco de queijo e azeitonas”. Não eram tempos de fartura, mas cresceu saudável no ar puro da montanha e a beber água fresca das nascentes. “Mas também gostava de vinho”
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António Lopes conta que os dias de Verão são imensos na acalmia da montanha. Puxa-se pela “charuteira para fumar um cigarro” e por vezes fazem-se uns trabalhos em madeira. Colheres de Pau e Castanholas entalhadas em bucho.
A madeira, confessa, vinha muitas vezes de umas ramadas cortadas às escondidas no quintal de uns senhores de Alpedrinha, porque “nessa altura não davam um pau a ninguém”. Acontece que tinham também dois cães de guarda. Mas nada que amedrontasse o um homem habituado a enfrentar lobos. “De noite um homem nu é mais feio que um bicho mau. Quando me viam nu, os cães fugiam de mim a ganir e eu lá tirava a minha pernada de bucho”.
Ainda que com apenas três freguesias, não faltam atractivos para uma escapadela ao Concelho de Manteigas. No coração da Serra da Estrela, e plantada à beira do Rio Zêzere, a pequena e acolhedora vila de Manteigas promete ar puro, tranquilidade, cultura e aventura.
A beleza natural pode ser desfrutada no desfiladeiro do rio Leandros, com uma cascata que, muitas vezes no Inverno, se transforma em gelo; na Fonte Paio Luís Martins com as águas do Rio Zêzere; nas Cascatas da Candeeira, com altura e volume consideráveis e que, no Inverno, chegam a apresentar colunas geladas com 10 metros de altura e a grossura de uma árvore; no Covão d’ Ametade, local ideal para um piquenique familiar enquadrado por rochas de formas fantásticas moldadas naturalmente ao longo dos séculos. Do Miradouro de Fragão do Corvo, abarca-se o horizonte sobre a vila de Manteigas e o Vale do Zêzere.
Longe da costa, as praias fluviais são cada vez mais uma opção para a população do interior. As autarquias têm reforçado os seus investimentos nestas estruturas de lazer, de forma a responderem à sua população e para atraírem turismo para os seus concelhos. A Kaminhos propõe algumas das praias fluviais vigiadas da região
Valhelhas - situada no concelho de Manteigas, é das zonas balneares fluviais mais conhecidas, atraindo muitas pessoas.
Em Portugal existem pelo menos 408 nascentes com propriedades curativas e mais de 300 destes pontos de água são conhecidos das populações ou usados para «tratar» doenças. Estes dados fazem parte do estudo «Das termas aos Spas: reconfigurações de uma prática terapêutica» do patrimonialista e investigador António Perestrelo de Matos. No estudo identificam-se 85 nascentes «tanques e banheiras» onde se praticam «lavagens», sobretudo «para as curas de doenças reumatológicas e dermatológicas».
Segundo o investigador, as 85 nascentes identificadas não estão incluídos os locais onde a «água é para beber porque se pensa que faz bem ao estômago, por exemplo».