Já não há pudor?

Quando o tema é a vergonha do corpo e dos sentimentos

27-6-2006
Quando o tema é a vergonha do corpo e dos sentimentos, as opiniões dividem-se e despertam paixões. Uma viagem pela história do pudor através dos tempos e dos lugares. Há quem diga que existe uma grande falta de pudor. Expõe-se o corpo e a sexualidade em situações impensáveis, extravasam-se atitudes e comportamentos que mais valia continuassem no universo da intimidade de cada um. Mariana, de 38 anos, secretária numa empresa de seguros, é categórica sobre o assunto: “As pessoas falam e discutem publicamente as suas vidas como se discutissem um acontecimento social sem importância. Banalizam tudo, inclusivamente a sua sexualidade. Basta ver o sucesso que os reality shows do tipo Big Brother têm vindo a ganhar para perceber onde param os nossos valores…”

Maria Paula, de 60 anos, administrativa, também fala em pudor, ou melhor, na falta dele, referindo-se à forma como as pessoas vivem hoje os encontros de amor, muito mais sexualizados. Sobretudo a juventude. “Os jovens relacionam-se essencialmente através do corpo sexual, desvalorizando as emoções, e mudam de parceiros com alguma facilidade.”

Raquel, de 44 anos, enfermeira num hospital público de Lisboa, defende: “Não concordo que exista mais falta de pudor do que havia há 20 anos, o que há é maior liberdade. Por outro lado, as pessoas também estão mais soltas e isso reflecte-se no seu comportamento que, regra geral, é irreprimível.”

Mas o que é o pudor? Com rigor, podemos dizer que se trata de um sentimento complexo, difícil de definir, que incide sobre diferentes objectos, sendo um dos mais comuns a vergonha da nudez. A sua origem é remota, mas cada época privilegia um aspecto diferente do pudor. Jean-Claude Bologne, filólogo francês, no livro História do Pudor (Teorema), resume as duas definições mais comuns e significativas do conceito: “sentimento de vergonha, de incómodo que se tem ao fazer, enfrentar ou ser testemunha das coisas de natureza sexual; disposição permanente para esse sentimento” e “incómodo que se sente perante aquilo que a dignidade de uma pessoa parece proibir”.

O dicionário distingue-lhe igualmente dois sentidos, apresentando-nos um pudor corporal, sexual, e outro dos sentimentos. Enquanto isso, Martin Seligman, investigador da área da psicologia positiva, define-o como uma das 24 forças (de carácter) presentes nas seis virtudes humanas. No caso do pudor, este está ligado à temperança, cujo pecado correspondente é a gula.

Embora surja muitas vezes associado à timidez, é diferente desta. De acordo com especialistas da matéria, tem a ver com o escondido, com o não querer desvendar. A partir do momento que existe um desejo de revelar, o pudor desaparece. Já a timidez é uma inibição, está na ordem do bloqueio. “Tem a ver com o medo de falhar e ser julgado pelo outro. Passa pelo receio, pelo temor de enfrentar determinadas situações, eventualmente sociais. Este pode atingir tamanhas proporções que o indivíduo deixa de enfrentar os desafios que a vida lhe coloca”, observa a psicóloga clínica e terapeuta familiar, Catarina Rivero. “Já o pudor tem a ver com o corpo, com o sexual.”

Pode-se ser tímido sem se ser pudico, e o contrário também é verdade. Há pessoas que não têm problemas com a nudez do corpo, no entanto, não gostam de desnudar-se de sentimentos, de se revelar. Outras, pelo contrário, conseguem falar de si, até mesmo contar detalhes da sua vida íntima, mas têm muita dificuldade em mostrar uns centímetros do corpo.

De qualquer forma, do pudor, há quem diga que é como o medo: na medida certa, é estruturante. Resguarda-nos. “Em demasia, pelo contrário, pode ser prejudicial. Aliás, tal como a timidez”, afirma Marta Borges Pires, psicóloga clínica e terapeuta familiar. Porém, conforme assegura também, há sempre uma esperança: “Ambos podem ser trabalhados.”

Social, histórico, cultural e dinâmico, o pudor é um conceito subjectivo. Não há um único tipo ou espécie de pudor, há vários ao longo das épocas e até dentro do mesmo tempo histórico. “Quando, no século XVII, as viagens intercontinentais revelaram aos Europeus povos que obedeciam a um pudor diferente do seu, surgiu uma nova reflexão (sobre este sentimento)”, declara Jean-Claude Bologne.

Cada tempo e sociedade cria os seus próprios “recatos” ou dá incidência a uns em detrimento de outros. Segundo Hans Peter Duerr, em Nudez e Pudor – o mito do processo civilizacional (Notícias Editorial), os indivíduos do final da Idade Média não só se “surpreendiam com os selvagens mais ou menos nus, como já antes se indignavam com os membros despidos ou meio despidos das seitas”. E assegura: “A partir desse dado, concluímos que não se pode falar de uma nudez pública sem quaisquer problemas naqueles tempos.”

Mais tarde, em 1822, dissertando sobre o tema do amor, Stendhal também se refere ao pudor. “Uma mulher de Madagáscar deixa ver sem pensar o que aqui mais se esconde, mas morreria de vergonha se tivesse de mostrar o braço”, escreve no livro Do Amor (Pergaminho). Segundo o autor do célebre tratado de paixões e ciúmes, três quartos do pudor “são coisa apreendida”. “É talvez a única lei, filha da civilização, que só produz felicidade.” Quanto à sua utilidade? “Ela é a mãe do amor, nada se lhe poderia recusar.” E os mecanismos deste sentimento? “A alma ocupa-se com a vergonha em vez de se ocupar a desejar; sufocam-se os desejos e os desejos conduzem às acções.”

As diferenças de perspectiva e formas de interiorizar este sentimento não são coisas do passado. Por causa de sentimentos de pudor, nós tapamos algumas partes do corpo, e essa prática tornou-se norma social. Os indígenas de alguns clãs destapam-nas e não é por falta dele. Em algumas tribos do outro lado do Mundo, mulheres e homens andam praticamente nus. Sem culpa nem pecado… nem pudor! E, para fazerem o “apelo sexual”, conforme explica Catarina Rivero, agem precisamente ao contrário de nós, ocidentais: vestem--se. “Por exemplo, algumas mulheres tapam os seios.”

O sentido de pudor vai evoluindo e adaptando-se. A psicóloga lembra que, em Portugal, por exemplo, se há 60 anos uma mulher viesse para a rua de mini-saia, como hoje, “isso seria considerado impúdico, pois o seu gesto ressaltaria o aspecto sexual”. Neste caso, “podemos verificar uma relação entre moda e pudor: a primeira faz evoluir o conceito da segunda”. Contudo, lembra, “nesta mesma altura, nas herdades agrícolas, as mulheres subiam as saias para melhor trabalhar e não eram avaliadas no mesmo sentido”. Posto isto, podemos concluir que, afinal, o pudor também está condicionado pelo lugar.

Por outro lado, como conciliar perspectivas diferentes deste mesmo sentimento num espaço multirracial, como é o nosso? Um dos casos que melhor ilustra esta realidade aconteceu em Março do ano passado, numa escola secundária de Luton, Bedfordshire, no Reino Unido, onde uma jovem muçulmana de 17 anos foi convidada a trocar o seu vestuário tradicional, o jilbab, pelo uniforme aprovado pela instituição que, por sinal, se “orgulha de servir alunos de diferentes credos”. Shabina Begum não acatou a sugestão e a família seguiu com o assunto para tribunal que acabou por lhe dar razão, concluindo que a escola tinha infringido os direitos (humanos) da jovem. A história – relatada pelo jornal britânico The Guardian, do passado dia 8 de Fevereiro – teria terminado aí, não fosse a instituição recorrer da sentença para a instância superior, o equivalente ao nosso Tribunal Supremo. As alegações da defesa da jovem aluna são irredutíveis: as vestes sugeridas não tapam suficientemente o corpo de Shabina, pelo que ela não se sente bem com elas nem a sua religião lhe permite optar por outro traje que não seja o tradicional.

Em muitos lugares, o que ontem era considerado um acto impúdico hoje já não é. Mas, como também tivemos possibilidade de constatar, continuam a existir lugares, espaços de acção, que sugerem algum recatamento na forma como nos apresentamos. Ou, pelo menos, o bom senso assim parece aconselhar.

No seu livro, Jean-Claude Bologne escreve que “na praia ou na avenida, o fato de banho não tem o mesmo significado”, e lembra que o “pudor individual” – o que cada indivíduo tem em mostrar-se, ver-se nu ou com roupa mais ousada – reforça-se com um “pudor social que define, em função da época e do lugar, os limites tolerados à exibição”. E acrescenta: “A moral vestida de grego ou de latim, conhece também a distinção entre ethos (regras de conduta individuais) e habitus (regras de vida social)…” Aliás, para este especialista, o pudor não se apresenta só “como perpétuo combate” entre “indivíduo e sociedade”, mas também “entre instinto e razão, entre consciência e inconsciência”.

Quando se trata de pudor, a fronteira entre o individual e o social é muito subtil. Socialmente, é-nos permitido o uso da roupa curta, decotes, transparências e o melhor que a moda pode criar, salvo em alguns meios. Recentemente, pais e educadores dos alunos de uma escola francesa constataram que era impúdico o uso de calças de cintura descaída que deixavam ver os slips, sendo os jovens proibidos de usar esta indumentária dentro da instituição. Sensivelmente pela mesma altura, o bispo de Leiria/Fátima, D. Serafim Ferreira da Silva, agradecia a presença e a fé por todos manifestada, mas criticava os que se tinham apresentado, no recinto do lugar das aparições, com os corpos “mais descobertos do que o desejável”. “O Santuário não é umapraia nem uma esplanada”, alertava. A diferença entre os dois casos é que este último trata de um pudor específico: o sagrado, que, conforme a definição, proíbe em igrejas e outros recintos sacros o que é permitido fora deles.

Seja o que for para cada indivíduo e sociedade, é transmitido desde muito cedo, à semelhança de outros valores fundamentais. Segundo Marta Borges Pires, “as crianças vão interiorizando a concepção de pudor vigente no seu tempo e na sociedade onde nascem e vivem através do processo de socialização, à medida que adquirem todos os padrões de pensamento e comportamento característicos dessa colectividade”. Provavelmente, esta aprendizagem permite--nos também ter uma noção das regras de pudor adequadas aos lugares e a respeitar a vergonha dos outros.

“Em termos individuais, adaptamo-nos ao pudor dos outros”, diz Catarina Rivero. “Se formos para determinado evento numa aldeia, onde sabemos que, à partida, vamos encontrar pessoas mais conservadoras, se calhar vamos ter mais atenção ao que vamos levar vestido.”


“O bem-estar individual não é linear. O indivíduo é um ser social, está inserido numa sociedade e precisa sentir-se integrado plenamente. Isto é, aceite pelos outros. Posto isto, tem de encontrar o equilíbrio entre ele e os outros, entre o individual e o social, não se focando apenas no seu bem-estar. Então, o pudor é um sentimento estruturante”, observa Marta Borges Pires.

Assim, há ou não falta de pudor nos nossos dias? E, a haver, qual a sua natureza? Consciente da subjectividade deste conceito que inspirou todo o tipo de arte, da pintura à escultura, passando pela literatura, Marta Borges Pires defende que a falta de pudor, hoje, poderá colocar-se ao nível da banalização do corpo, “no sentido em que as relações poderão tender a ser mais sexuais e menos emocionais”. Mas também pensa que esta forma de viver a relação com o outro tende a esgotar-se. “Aliás, penso que já nos encontramos num momento de transição, que tende a valorizar o indivíduo como um todo.”

Catarina Rivero partilha a mesma opinião e adverte que o problema não está na componente sexual da relação, a não ser quando esta é exclusiva. Ou seja, despojada dos sentimentos de afecto. “Embora seja muito importante vivermos bem com a nossa sexualidade, não nos devemos esquecer de que somos mais do que o nosso corpo. Se, por um lado, é de fundamental importância relacionarmo-nos com o outro, por outro, é essencial saber viver a nossa intimidade.” Neste contexto, a terapeuta familiar defende que corremos o risco de ser impúdicos quando nos destituímos da alma, colocando a tónica exclusivamente no corpo físico, no seu aspecto sexual. E aconselha: “Há que encontrar o equilíbrio entre a intimidade pessoal e a abertura social.”

Mas os pensadores do nosso tempo são objectivos: os pudores do século XX, de que somos herdeiros directos, estão mais na ordem dos sentimentos. “É indecente (...) falar de si próprio, fazer perguntas indiscretas e falar de dinheiro”, conforme se pode ler em História do Pudor. Segundo o autor do livro, Monsenhor Lustiger afirmava a este respeito que “nos escondemos para fazer o sinal da cruz, que antigamente se multiplicava à vontade”.

“São estes os pudores do nosso século, vergonha do que hoje se considera fraqueza”, observa Jean-Claude Bologne. “Pressente-se aí o laço que une o pudor corporal e pudor dos sentimentos. É errado tentar distinguir neste vínculo um pudor exterior e outro interior. A vergonha da nudez nasceu numa época em que mostrar-se nu era sinal de fraqueza (Idade Média) ou de ridículo (século XIX). Hoje, a moda quer que a literatura, as artes, a publicidade se libertem do pudor corporal: por isso, ele desapareceu do domínio artístico enquanto na vida quotidiana continua a usar-se bastante.”

De qualquer forma, o pudor masculino é diferente do feminino. O do sentimento – chorar, lamentar-se, orar e corar, por exemplo – foi sempre considerado domínio do homem. A mulher privilegia o corporal. A noção de pudor feminino está muito ligada à nudez, às coisas do corpo e do sexo. A diferenciação dos pudores por sexo é antiga e prevalece nos nossos dias, embora as fronteiras entre uns e outros não sejam tão rígidas e estanques como outrora. Num tempo em que se cultiva o êxito e o sucesso, e se recusa todo o tipo de fragilidades, o pudor dos sentimentos ganha novo fôlego sem distinção por sexos. Espera-se, por isso, que os indivíduos – homens e mulheres – não exteriorizem preocupações, angústias, carências e outras emoções semelhantes. Por outro lado, curiosamente, vai sendo permitido a um homem chorar, sem que uma avaliação pública tão severa e negativa caia sobre si.

“A ideia de que um homem não chora tem muito a ver com o estatuto masculino, daquilo que são os papéis de género. Mas, de facto, isso está a mudar”, comenta Catarina Rivero, sublinhando que, de qualquer forma, é mais fácil um homem chorar na frente de uma mulher do que de um homem – “neste caso até pode tirar vantagens”, graceja. No final, há sempre que levar em conta o lugar onde a situação ocorre. Onde se revelam as emoções. “O indivíduo que chore em determinado meio social corre o risco de ser alvo de troça, independentemente de tratar--se de homem ou mulher.” Marta Borges Pires partilha a mesma opinião, defendendo, por isso, aquilo que chama “o equilíbrio entre a intimidade pessoal e a abertura social, também no terreno dos sentimentos”.
A história do pudor cumpre-se assim através dos tempos, estando presente em todos eles. Cada sociedade e tempo histórico valoriza uns em detrimento dos outros, e cria os seus. Do pudor, talvez possamos dizer que, quando bem calibrado, pode ser a virtude que zela pela nossa intimidade plena. E, neste sentido, parece valer a pena cultivar pudor.
 
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Júlia Serrão
Máxima



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